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Passagem de nível sem guarda

Passagem de nível sem guarda

In memoriam

Ruído, muito ruído e de repente as luzes apagam-se; a sala fica em suspenso e eis que da penumbra surge um personagem…frágil; sapatilhas de pano, jeans rasgados, casaco de malha largo q.b., cabelo loiro algo desgrenhado e com uma guitarra na mão…canhoto; não há dúvida, estamos na presença de Kurt Cobain, o artista, o criador da cena grungee… o mito de uma geração…

E o espetáculo começava…

Da guitarra de Cobain, entre acordes por vezes descoordenados, unissonamente com a bateria de Grohl e o baixo de Novoselic, saía a melodia que a sua voz meio rouca transformava em música desconcertante, uma nova onda musical saída de uma Seattle moribunda e a preto e branco que foi capaz de abrir as cerradas fileiras uniformes do rock com rajadas de melodia e loucura, encanto e desencanto, silêncio e ruído, uma espécie de renascimento musical a desencravar o marasmo a que o Synthpop dos anos 80 havia condenado a música.

Em pouco tempo este power-trio, Nirvana, liderados pelo carismático Kurt Cobain, passou de uma desconhecida banda de garagem, para um fenómeno de vendas e de popularidade à escala mundial; todo o planeta em pouco tempo ficara rendido aos Nirvana, um planeta que desde sempre havia sido cruel para Cobain, a começar pela infância difícil, seguindo o tortuoso caminho das drogas e por fim a fama; sim Cobain, odiava ser famoso, não suportava o peso dos paparazzi, afirmando um dia a um jornalista “Quem me dera ter tirado um curso de como ser rock star, talvez isso me poupasse uma boa parte dos horrores porque tenho passado”.

Apesar de brilhante artista, Cobain era a antítese de Freddye Mercury, que vibrava e fazia vibrar nos concertos ao vivo. Para Cobain, talvez fosse uma injustiça que, devido ao seu trabalho, os milhares e milhares de fãs à sua frente se sentissem felizes e extasiados, quando ele se sentia desde sempre infinitamente angustiado por um mundo que tantas amarguras lhe tinha dado e que agora estava a seus pés…ele tinha ganho o combate, mas não era este o resultado que ele queria; a sua constante dor de viver havia-se transformado, mas continuava a ser dor, e a doer cada vez mais, ao ponto de, talvez no auge da fama, ter decidido acabar com vida…abruptamente…

05 de abril de 1994…esta data importa a todos os amantes de música; nesta data Kurt deixou as amarguras terrenas, subindo a uma dimensão onde há alguns anos outros deuses do rock que também haviam partido com 27 anos, como Jim Morrison, ou Janis Joplin o aguardavam para uma justa coroação.

O mundo nunca mais foi o mesmo e “Smells like teen spirit”, “lithium” ou “Come as you are” continuam como hinos da juventude e  confirmam o estatuto de lenda que Kurt Cobain ainda hoje e sempre grangeia.